Yara Cavini: 70 anos de ativismo por um Brasil mais justo

Especial 10 anos Rede AMARRRIBO Brasil-IFC

“Determinada e muito curiosa. Nasceu indignada e com a idade piorou bastante. Acredita no ser humano e no seu potencial de transformação da realidade”. É assim que Yara Cavini, 70 anos, define seu perfil em uma rede social.

Yara é uma integrantes da ONG Guará, de Águas da Prata (SP), que integra a Rede AMARRIBO Brasil – IFC. A organização trabalha com o combate à corrupção e a defesa do meio ambiente. Porém, o ativismo começou muito antes do surgimento da ONG. “Acho que nasci assim, ativista”, disse Yara, contando que deu muito trabalho aos pais, que eram autoritários.

A paulistana se mudou para Poços de Caldas (MG) quando se casou, mas a ditadura militar fez com que ela retornasse para a capital quando, por pouco não foi presa, aos 19 anos. “Um policial, nosso amigo, nos informou que o nome do meu marido estava na lista das pessoas que seriam presas. Peguei meu filho ainda bebê e um travesseiro para acomodá-lo. Depois fugimos para São Paulo não sermos pegos”, lembra.

Em 1970, Yara se mudou para Águas da Prata, cidade onde vive até hoje. A professora aposentada divide seu tempo entre a família e as atividades de controle social, que exerce como voluntária. São três filhos, seis netos, uma bisneta e um Brasil todo para tomar conta. Segundo Yara, o voluntariado sempre fez parte da sua vida. Ela começou atuando na área de assistência social e depois foi professora no Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL.

Em 2006, Yara começou a se incomodar com os atos do prefeito da cidade, que fazia uso indevido dos recursos públicos. Com este cenário, em 2007, Yara e um grupo de mulheres com a mesma energia e ideais formaram a ONG Guará.

Yara conta que o que motivou a mobilização foi o fato de o prefeito ter, juntamente com a Câmara, feito uma lei que prejudicava muito a cidade. Na calada da noite transformaram Águas da Prata na Cidade da Jovem Guarda. Pretendiam mudar os nomes das ruas e colocar, na entrada da cidade, uma guitarra de 30 metros com os dizeres ‘Águas da Prata – Cidade da Jovem Guarda’. "Tudo isso sem uma audiência pública, sem consultar o Conselho de Turismo, na surdina mesmo. Nos mobilizamos, a população estava muito indignada, fizemos ver aos vereadores que tinham sido usados e numa sessão histórica essa lei foi revogada.  Começamos a descobrir outros desmandos e decidimos fundar a ONG, já então sob orientação da AMARRIBO”,  diz.

Yara teve seu primeiro contato com a AMARRIBO em 2007, foi ela quem escreveu um e-mail para a organização em busca de orientações sobre como fundar uma ONG para fiscalizar a gestão pública de Águas da Prata. “A Lizete Verillo (Diretora de Combate à Corrupção da AMARRIBO) me mandou o modelo de estatuto e todas as orientações. Em 2008 recebemos a Caravana da Cidadania, com o Instituto de Fiscalização e Controle (IFC) e assim integramos a Rede AMARRIBO Brasil-IFC”, relata.

A ONG Guará foi responsável pelo afastamento de dois prefeitos de Águas da Prata.  “Um foi preso e outro está com os bens bloqueados. Ambos estão mortos politicamente, na cidade”, explica a ativista. A formação e a atuação da ONG mudaram Águas da Prata. Nunca tinha havido nenhum tipo de controle social, era tudo tão novo que o impacto foi muito grande.

Contudo, atualmente, o convívio é um pouco diferente. “Nós ajudamos a prefeitura e a Câmara a fazerem leis, por exemplo, de interesse da cidade. É uma delícia quando se pode trabalhar junto”, diz Yara.

Yara não atua somente na esfera municipal. Em 2010, ela foi voluntária na coleta de assinaturas para a Lei da Ficha Limpa. “A aprovação da ficha limpa foi o resultado de meses de mobilização, do esforço na coleta de assinaturas, da experiência de ver como a sociedade ansiava por isso. Era comovente ver pessoas simples "desenhando" seus nomes naquelas folhas. Fui a Brasília entregar as assinaturas no dia 24 de setembro de 2009. Impossível conter as lágrimas. Nascia ali um novo Brasil e eu estava lá – um privilégio e um sentimento de dever cumprido que tomou conta de todos”, lembra.

“Agora quero ver a lei da Reforma Política de iniciativa popular ser aprovada”, conta Yara, que neste ano, terá o trabalho redobrado devido às eleições de outubro. A ONG Guará irá divulgar quem são os fichas sujas e trabalhar na conscientização dos cidadãos.

Na juventude dos seus 70 anos e com uma energia invejável, Yara respira cidadania e reforça: “Se for para ir a passeatas, eu vou. Se for para pintar a cara, eu faço. Se for para protestar, eu protesto! Me apaixonei pelo controle social e isso é a minha vida!”.

Para saber mais sobre a ONG Guará escreva para: [email protected]

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Este texto faz parte de uma série especial promovida pela AMARRIBO Brasil em comemoração aos 10 anos da Rede AMARRIBO Brasil-IFC.

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